Steve Waddell analisa 10 casos de redes de ação global, voltadas para inovação sócio ambiental, sua criação, estrutura básica e como se beneficiam de uma das mais interessantes características das redes: a emergência. O autor cria uma tipologia para essas redes e analisa sua evolução no tempo. Vale a pena ler e ajuda a refletir sobre as nossas redes de ação em geral, mesmo que não sejam voltadas a causas sócio-ambientais.
O livro "Maps of Imagination: the writer as a cartographer", foi um dos nossos últimos achados e tem tudo a ver com as andanças da Dobra pelo mundo das cartografias da complexidade. Nele, o escritor Peter Turchi fala de literatura, mas aborda especialmente a necessidade humana de criar imagens mentais e construir mapas do desconhecido para se orientar. Desenhar essas cartografias, segundo ele, é poder criar territórios imaginários e conquistar novos espaços mentais. Desenhamos para dar sentido ao mundo e ao mesmo tempo para materializar uma certa visão. Na perspectiva de antigos exploradores, além do Canal de Suez havia monstros e não um lugar cujo mapa pudesse ser visualizado. Na perspectiva de um nova yorquino, o mundo terminaria logo depois do Rio Hudson. Turchi conta histórias preciosas de obras famosas que contém mapas, tais como Moby Dick, de Herman Melville, ou A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, além de mostrar versões surpreendentes do Mapa Mundi Criar imagens é criar novos possíveis.
O livro, A Árvore do conhecimento - As bases biológicas da compreensão humana, de Humberto R. Maturana e Francisco J. Varela, é um dos livros inspiradores na concepção dos nossos projetos. Um dos pontos importantes do livro é a premissa de que os seres vivos são autônomos, capazes de produzir seus próprios componentes ao interagir com o meio. Se os observarmos em seu relacionamento com o meio, torna-se claro que ao mesmo tempo, dependem de recursos externos para viver. Assim, autonomia e dependência deixam de ser opostos inconciliáveis: uma complementa a outra. Uma constrói a outra e por ela é construída, numa dinâmica circular. O segundo ponto é a tese de que a vida é um processo de conhecimento e que os seres vivos constroem esse conhecimento não a partir de uma atitude passiva (processamento das informações) e sim pela interação: Vivem no conhecimento e se conhecem no viver. (...) somos sempre influenciados e modificados pelo que vemos e sentimos. (...)todo ato de conhecer faz surgir um mundo (Maturana, p10) No primeiro capítulo do livro, Conhecendo o conhecer, os autores discorrem sobre o processo de conhecer como conhecemos. Eles dizem que no processo do conhecimento não existe uma realidade independente do observador. Um fenômeno é descrito de uma maneira particular, ou seja, a partir de uma reflexão da experiência vivida pelo observador. “Toda reflexão, inclusive a que se faz sobre os fundamentos do conhecer humano, ocorre necessariamente na linguagem, que é a nossa maneira particular de ser humanos e estar no fazer humano” (Maturana, p 32) " A reflexão é um processo de conhecer como conhecemos, um ato de voltar a nós mesmos, a única oportunidade que temos de descobrir nossas cegueiras e reconhecer que as certezas e os conhecimentos dos outros são, respectivamente, tão aflitivos e tão tênues como os nossos" (Maturana, p 30) "o conhecimento do conhecimento obriga. Obriga-nos a assumir uma atitude de permanente vigília contra a tentação da certeza, a reconhecer que nossas certezas não são provas da verdade, como se o mundo que cada um vê fosse O mundo e não UM mundo que construímos juntamente com os outros." (Maturana, pág. 267); No segundo capítulo, A organização dos seres vivos, os autores falam sobre a origem dos seres vivos e trazem os conceitos de organização, estrutura e metabolismo celular. Os seres vivos diferenciam-se entre si por terem estruturas diferentes, mas a são iguais em sua organização. São autônomos: podem especificar suas próprias leis, aquilo que é próprio dele. O que os distingue é que sua organização é tal que seu único produto são eles mesmos, inexistindo separação entre produtor e produto, são autopoiéticos (derivado do grego poiesis, produção) porque estão a todo instante recompondo seus componentes desgastados. (...) “somos a um só tempo produtores e produto de nós mesmos. Nos capítulos seguintes, os autores descrevem sobre a vida dos seres vivos na terra, seguindo o raciocínio da fenomenologia biológica. Nessa temática, acoplamento estrutural é um dos conceitos apresentados. Esse conceito pode ser entendido como um conjunto de mudanças que o meio provoca na estrutura de um determinado organismo e vice-versa, numa relação circular. Ou seja, um organismo é sempre fonte de resposta para o meio onde se encontra. Quando influenciado muda; mudado responde provocando também mudanças no meio que o influenciou. “O acoplamento estrutural com o meio como condição de existência, abrange todas as dimensões das interações celulares e, portanto também as que tem a ver com outras células” (maturana, p 87,88). Nos capítulos seguintes os autores descrevem sobre o desenvolvimento do sistema nervoso dos seres vivos e o conhecimento. Descrevem que a aprendizagem é uma expressão do acoplamento estrutural, que sempre manterá uma compatibilidade entre o operar do organismo e o meio. Toda interação de um organismo, toda conduta observada, pode ser avaliada por um observador como um ato cognitivo. Citam o exemplo da relação entre um gato e seu dono que estabelecem um contato com significado no despertar matinal. O gato caminha fazendo barulhos no piano caso o seu dono não abra a porta para ele sair para o jardim. "Viver é conhecer" (viver é a ação efetiva no existir como ser vivo). Nos capítulos oito e nove os autores descrevem sobre os fundamento biológico do fenômeno social dos seres vivos. Relatam que dois ou mais organismos, ao interagir, recorrentemente, geram um acoplamento social em que se envolvem de modo recíproco na realização de suas respectivas autopoieses. As condutas que ocorrem nesses domínios de acoplamentos sociais são comunicativas e podem ser inatas ou adquiridas. Para Maturana e Varela a nossa experiência como seres humanos está acoplada a um mundo que vivenciamos com outros seres humanos e que contem as regularidades – nossos critérios de validação na convivência como seres sociais. Vemo-nos nesse acoplamento, não como a origem de uma referência nem em relação a uma origem, mas como um modo de contínua transformação no devir do mundo linguístico que construímos com os outros seres humanos.” (Maturana,pág. 257); " Uma explicação é sempre uma proposição que reformula ou recria as observações de um fenômeno, num sistema de conhecimentos aceitáveis para um grupo de pessoas que compartilham um critério de validação." (Maturana, p34) Cada pessoa diz o que diz e ouve o que ouve segundo sua própria determinação estrutural. Da perspectiva de um observador, sempre há ambigüidade numa interação comunicativa. O fenômeno da comunicação não depende do que se fornece e sim do que acontece com o receptor. E isso é muito diferente do transmitir informação. “como seres humanos, dotados de linguagem e emoção, nos movemos em espaço de conversação e constituímos diferentes domínios lingüísticos, com diferentes critérios de validação da verdade”. Se sabemos que nosso mundo é sempre o que construímos com os outros, cada vez que nos encontrarmos em contradição ou oposição com outro ser humano com qual desejamos conviver, nossa atitude não poderá ser reafirmar o que vemos do nosso próprio ponto de vista. " Todo ato humano ocorre na linguagem. Toda ação na linguagem produz o mundo que se cria com os outros, no ato de convivência que dá origem ao humano. Por isso, toda ação humana tem sentido ético. Essa ligação do humano ao humano é, em última instância, o fundamento de toda a ética como reflexão sobre a legitimidade da presença do outro" (Maturana, p 269). Segundo os autores o fundamento biológico do fenômeno social é a aceitação do outro – o amor. Sem amor, sem a aceitação do outro ao nosso lado, não há socialização, e sem socialização não há humanidade. Tudo o que limite a aceitação do outro –seja a competição, a posse da verdade ou a certeza ideológica – destrói ou restringe a ocorrência do fenômeno social e, portanto, também o humano, porque destrói o processo biológico que o gera. No último capítulo do livro, Maturana e Varela, sinalizam os dois principais objetivos do livro. O primeiro é fazer com que o leitor se sinta motivado a ver e refletir sobre todo o seu fazer no mundo que produz. O segundo objetivo do livro é o de que a sua essência não seja apenas em ser uma pesquisa científica, mas também tenha o propósito de oferecer para o leitor uma compreensão do ser humano na dinâmica social capaz de libertar da cegueira fundamental: a de não nos darmos conta de que só temos o mundo que criamos com o outro, e que só na aceitação do outro (o amor) nos permite criar esse mundo em comum. Os autores finalizam a obra com a seguinte reflexão: “O leitor não deve buscar aqui receitas para o seu fazer concreto. A intenção deste livro foi de convidá-lo a uma reflexão que o leve a conhecer seu conhecer. A responsabilidade de transformar esse conhecimento na carne e no osso de suas ações está em suas mãos”. (Maturana, p 271).
Estamos lendo o livro "The Starfish and the Spider", de Ori Brafman e Rod A. Beckstrom, ainda sem tradução para o português.O livro traz diversas histórias interessantes sobre a emergência de organizações que funcionam como redes distribuidas. É uma leitura leve e divertida. Uma das histórias contadas pelos autores trata de uma apresentação feita por Dave Garrison, CEO de uma Start Up de internet, a banqueiros franceses em 1995. Os autores relatam a cômica situação de Dave, que se viu preso em uma longuíssima reunião onde os os potenciais investidores simplesmente não compreendiam como um empreendimento poderia funcionar com base em uma rede distribuída. Em um horas de discussão, Dave foi colocado na parede por um dos presentes. "Afinal, quem é o presidente da Internet?" Dave relutou, mas finalmente assumiu: Eu sou o presidente da Internet! Não sabemos se Dave teve sucesso depois de ter assumido mais alto cargo inexistente da história, mas todos aqueles que já tentaram explicar o funcionamento das redes para alguém que concebe a hierarquia como a única forma de gestão podem se identificar com ele. Por que o livro tem esse nome? Uma dica: se cortarmos a cabeça de uma aranha, ela morre. Se cortarmos uma das pernas de uma estrela do mar, teremos duas estrelas do mar. Cortar a cabeça do Napster não salvou a indústria fonográfica dos problemas gerados pelo compartilhamento de músicas na web. Pelo contrário, gerou torrents, emules e tantos outros. Boa leitura!
Adam Kahane nos premia com mais um lindo livro, prosseguindo nas reflexões iniciadas em “Resolvendo Problemas Complexos”. Poder e Amor trata de dilemas fundamentais que enfrentamos como humanidade ligados à necessidade de coordenarmos impulsos de poder, auto-realização individual e empreendedorismo com necessidades de pertencimento, amor e colaboração. A aprendizagem social e o fato de estarmos cada vez mais inseridos em redes de trabalho e projetos tornam essa reflexão ainda mais urgente. O livro trata das experiências mais recentes de Kahane e seus parceiros da Reos Partners em busca do aprimoramento do método de inovação multistakeholders que desenvolvem para solucionar problemas complexos da humanidade. Os erros e acertos revelados no livro levam a reflexões que podem ser transferidas para o contexto de trabalho de qualquer um, esteja ele tratando da sustentabilidade do planeta ou simplesmente da implantação de um projeto, afinal, todos trabalhamos em contextos complexos. Poder e amor é um livro muito adequado ao momento do Brasil, que tem tanto potencial de crescimento, mas ainda o faz sem buscar formas de respeitar e coordenar o amor e o poder dos stakeholders envolvidos, por exemplo em grandes obras e grandes interferências no meio ambiente.




















