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O Sarau de 21/09  foi ótimo. Um grande grupo com executivos, empreendedores, consultores e curiosos em geral. Sala cheia de boas histórias. O tema foi Cultura Organizacional e Inovação e as moderadoras fomos eu, Luciana Annunziata da Dobra e Silvana Aguiar da Antar Consultoria. Começamos a partir de um lindo texto do romance De Repente, nas Profundezas do Bosque, de Amos Oz em que os lenhadores passam a seus filhos um antigo saber: “nunca, mas nunca mesmo, de maneira alguma, mas de maneira alguma mesmo” era permitido entrar na floresta durante a noite, pois Nehi, o demônio, vivia ali. Então começamos explorando a inovação como esse lugar escuro, em que lidamos com a incerteza, algo que tentamos ancestralmente evitar. O medo de arriscar é passado de pai para filho, permeia nossa vida em diversos campos e o ambiente de trabalho é somente mais um lugar onde esse medo se manifesta. Silvana colocou então a questão que guiou sua tese de doutorado: Que ecologia é essa que dá condições para que a inovação aconteça? Uma das maneiras de entender essa ecologia é compreendendo o discurso que a permeia. O discurso revela o modo de viver da organização, revela os valores e crenças arraigados na cultura. Além do discurso, a leitura dos símbolos é fundamental, pois eles possibilitam e representam os pactos existentes na organização. A inovação se baseia nesses pactos. Muitas histórias serviram como exemplo. Silvana contou do susto dos gestores ao serem convidados para uma reunião com comes e bebes na sala da presidência da Embraer, onde eles nunca haviam entrado. Era um símbolo. Contei a história do time sênior de P&D da Kibon e da observação que fiz do modelo de trabalho deles quando a empresa foi comprada pela Unilever. Era um time silencioso, mas que conversava e ria para definir a estação de rádio que seria selecionada. Era o rádio mais importante da empresa! Luiz Butti veio com um contraponto, tinha ficado com a história da escuridão do bosque na cabeça. “Mas inovação é medo do escuro ou frio na barriga?” e foi complementado pelo Diego Dutra “é paixão!”. “É uma cultura coerente em movimento”, disse a Silvana. Há empresas com uma cultura muito coesa, mas sem essa energia apaixonada que move a inovação. Ela deu o exemplo da Promon, com sua cultura de “alinhados briguentos”. Na análise de discurso dessa empresa, a palavra reinvenção era uma das que mais surgia. “E de onde vem a inovação?”, perguntava ela, “Sei lá, Silvana, vem das paredes”, respondiam eles. Então a inovação tem ao mesmo tempo esse componente de medo, de frio na barriga e de paixão. Pra entrar nessa floresta, precisa estar bem acompanhado, e ter coragem, daí a necessidade de um mínimo de coesão cultural. “Você não vai entrar na floresta com alguém que acabou de conhecer”. Caspar complementou: “a cultura de inovação é diferente em cada empresa, não dá pra copiar. A necessidade de inovação vai ser diferente dependendo do tamanho e do nível de maturidade da empresa, além do setor em que ela atua.” Quanto mais madura a empresa, mais difícil de manter viva a cultura de inovação. “What got you here, won´t get you there.” Além disso, se a empresa está num setor ultra-dinâmico, como o de Telecom, ou o varejo, a inovação estará sempre no encalço. Não há tempo para cristalizar práticas e produtos, ou pelo menos o risco dessa perda de maleabilidade é enorme. “Por que inovar nesta empresa neste momento?” Essa é uma pergunta fundamental, pois a inovação é totalmente contextual. Para entrar nessa floresta, é preciso que tenha sentido. “E é necessário entender o processo de inovação. São habilidades diferentes a cada etapa e o que foi útil na criação, pode não ser necessário na implementação”, coloquei. Então a cultura de inovação lida com os paradoxos, vive num estado de jogo entre a estabilidade e a instabilidade, entre saber criar e saber analisar e implementar, entre ser estrutura  e ser rede. A cultura de inovação sabe habitar esses dois lugares ao mesmo tempo. E como isso acontece na prática sem que tudo vire uma grande confusão? É preciso conversar sobre inovação para esclarecer o seu significado específico na organização. A conversa é o que faz o sistema vibrar. Segundo Humberto Maturana, nós vivemos as nossas conversações e elas ditam o que podemos perceber. São a própria energia que alimenta aquela ecologia que a Silvana colocou no começo da conversa. “O ambiente de trabalho inovador é o que permite vida”, diz Silvana. Eu diria, é o ambiente que pulsa nas conversações. E onde acontece esse pulsar? Não somente quando verbalizamos. Falamos um pouco da teoria U que se apóia muito no poder da meditação e agora lembro do filósofo  Gilles Deleuze com sua famosa frase “eu não me mexo muito para não espantar os devires.” A inovação é esse futuro que vai chegando, mas que precisa ser percebido, seja nas conversas, seja nas pausas. Então a cultura de inovação tem ritmo. É apaixonada, mas sabe pausar. Conversa, mas sabe focar. Gera negócios, mas também se questiona sobre seu modelo de negócios. “E até onde vai essa cultura, quais os limites da organização nesse caso?”, pergunta alguém. Ah, todos concordaram, essa é uma organização que transborda.

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O livro, A Árvore do conhecimento - As bases biológicas da compreensão humana, de Humberto R. Maturana e Francisco J. Varela, é um dos livros inspiradores na concepção dos nossos projetos. Um dos pontos importantes do livro é a premissa de que os seres vivos são autônomos, capazes de produzir seus próprios componentes ao interagir com o meio. Se os observarmos em seu relacionamento com o meio, torna-se claro que ao mesmo tempo, dependem de recursos externos para viver. Assim, autonomia e dependência deixam de ser opostos inconciliáveis: uma complementa a outra. Uma constrói a outra e por ela é construída, numa dinâmica circular. O segundo ponto é a tese de que a vida é um processo de conhecimento e que os seres vivos constroem esse conhecimento não a partir de uma atitude passiva (processamento das informações) e sim pela interação: Vivem no conhecimento e se conhecem no viver. (...) somos sempre influenciados e modificados pelo que vemos e sentimos. (...)todo ato de conhecer faz surgir um mundo (Maturana, p10) No primeiro capítulo do livro, Conhecendo o conhecer, os autores discorrem sobre o processo de conhecer como conhecemos. Eles dizem que no processo do conhecimento não existe uma realidade independente do observador. Um fenômeno é descrito de uma maneira particular, ou seja, a partir de uma reflexão da experiência vivida pelo observador. “Toda reflexão, inclusive a que se faz sobre os fundamentos do conhecer humano, ocorre necessariamente na linguagem, que é a nossa maneira particular de ser humanos e estar no fazer humano” (Maturana, p 32) " A reflexão é um processo de conhecer como conhecemos, um ato de voltar a nós mesmos, a única oportunidade que temos de descobrir nossas cegueiras e reconhecer que as certezas e os conhecimentos dos outros são, respectivamente, tão aflitivos e tão tênues como os nossos" (Maturana, p 30) "o conhecimento do conhecimento obriga. Obriga-nos a assumir uma atitude de permanente vigília contra a tentação da certeza, a reconhecer que nossas certezas não são provas da verdade, como se o mundo que cada um vê fosse O mundo e não UM mundo que construímos juntamente com os outros." (Maturana, pág. 267); No segundo capítulo, A organização dos seres vivos, os autores falam sobre a origem dos seres vivos e trazem os conceitos de organização, estrutura e metabolismo celular. Os seres vivos diferenciam-se entre si por terem estruturas diferentes, mas a são iguais em sua organização. São autônomos: podem especificar suas próprias leis, aquilo que é próprio dele. O que os distingue é que sua organização é tal que seu único produto são eles mesmos, inexistindo separação entre produtor e produto, são autopoiéticos (derivado do grego poiesis, produção) porque estão a todo instante recompondo seus componentes desgastados. (...) “somos a um só tempo produtores e produto de nós mesmos. Nos capítulos seguintes, os autores descrevem sobre a vida dos seres vivos na terra, seguindo o raciocínio da fenomenologia biológica. Nessa temática, acoplamento estrutural é um dos conceitos apresentados. Esse conceito pode ser entendido como um conjunto de mudanças que o meio provoca na estrutura de um determinado organismo e vice-versa, numa relação circular. Ou seja, um organismo é sempre fonte de resposta para o meio onde se encontra. Quando influenciado muda; mudado responde provocando também mudanças no meio que o influenciou. “O acoplamento estrutural com o meio como condição de existência, abrange todas as dimensões das interações celulares e, portanto também as que tem a ver com outras células” (maturana, p 87,88). Nos capítulos seguintes os autores descrevem sobre o desenvolvimento do sistema nervoso dos seres vivos e o conhecimento. Descrevem que a aprendizagem é uma expressão do acoplamento estrutural, que sempre manterá uma compatibilidade entre o operar do organismo e o meio. Toda interação de um organismo, toda conduta observada, pode ser avaliada por um observador como um ato cognitivo. Citam o exemplo da relação entre um gato e seu dono que estabelecem um contato com significado no despertar matinal. O gato caminha fazendo barulhos no piano caso o seu dono não abra a porta para ele sair para o jardim. "Viver é conhecer" (viver é a ação efetiva no existir como ser vivo). Nos capítulos oito e nove os autores descrevem sobre os fundamento biológico do fenômeno social dos seres vivos. Relatam que dois ou mais organismos, ao interagir, recorrentemente, geram um acoplamento social em que se envolvem de modo recíproco na realização de suas respectivas autopoieses. As condutas que ocorrem nesses domínios de acoplamentos sociais são comunicativas e podem ser inatas ou adquiridas. Para Maturana e Varela a nossa experiência como seres humanos está acoplada a um mundo que vivenciamos com outros seres humanos e que contem as regularidades – nossos critérios de validação na convivência como seres sociais. Vemo-nos nesse acoplamento, não como a origem de uma referência nem em relação a uma origem, mas como um modo de contínua transformação no devir do mundo linguístico que construímos com os outros seres humanos.” (Maturana,pág. 257); " Uma explicação é sempre uma proposição que reformula ou recria as observações de um fenômeno, num sistema de conhecimentos aceitáveis para um grupo de pessoas que compartilham um critério de validação." (Maturana, p34) Cada pessoa diz o que diz e ouve o que ouve segundo sua própria determinação estrutural. Da perspectiva de um observador, sempre há ambigüidade numa interação comunicativa. O fenômeno da comunicação não depende do que se fornece e sim do que acontece com o receptor. E isso é muito diferente do transmitir informação. “como seres humanos, dotados de linguagem e emoção, nos movemos em espaço de conversação e constituímos diferentes domínios lingüísticos, com diferentes critérios de validação da verdade”. Se sabemos que nosso mundo é sempre o que construímos com os outros, cada vez que nos encontrarmos em contradição ou oposição com outro ser humano com qual desejamos conviver, nossa atitude não poderá ser reafirmar o que vemos do nosso próprio ponto de vista. " Todo ato humano ocorre na linguagem. Toda ação na linguagem produz o mundo que se cria com os outros, no ato de convivência que dá origem ao humano. Por isso, toda ação humana tem sentido ético. Essa ligação do humano ao humano é, em última instância, o fundamento de toda a ética como reflexão sobre a legitimidade da presença do outro" (Maturana, p 269). Segundo os autores o fundamento biológico do fenômeno social é a aceitação do outro – o amor. Sem amor, sem a aceitação do outro ao nosso lado, não há socialização, e sem socialização não há humanidade. Tudo o que limite a aceitação do outro –seja a competição, a posse da verdade ou a certeza ideológica – destrói ou restringe a ocorrência do fenômeno social e, portanto, também o humano, porque destrói o processo biológico que o gera. No último capítulo do livro, Maturana e Varela, sinalizam os dois principais objetivos do livro. O primeiro é fazer com que o leitor se sinta motivado a ver e refletir sobre todo o seu fazer no mundo que produz. O segundo objetivo do livro é o de que a sua essência não seja apenas em ser uma pesquisa científica, mas também tenha o propósito de oferecer para o leitor uma compreensão do ser humano na dinâmica social capaz de libertar da cegueira fundamental: a de não nos darmos conta de que só temos o mundo que criamos com o outro, e que só na aceitação do outro (o amor) nos permite criar esse mundo em comum. Os autores finalizam a obra com a seguinte reflexão: “O leitor não deve buscar aqui receitas para o seu fazer concreto. A intenção deste livro foi de convidá-lo a uma reflexão que o leve a conhecer seu conhecer. A responsabilidade de transformar esse conhecimento na carne e no osso de suas ações está em suas mãos”. (Maturana, p 271).

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